sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Na torcida para as chatas


Duas estórias que acompanham os acontecimentos em torno de duas garotas chatas. Mas muito chatas. Linhas que fazem você pensar: se eu conhecesse uma pessoa assim, com certeza, não seria amiga dela. Ainda assim, você se vê torcendo para elas.

Reparação, de Ian Mcewan e Um Domingo para Sempre, Japrisot Sebastien. No primeiro, Briony nos conta sua estória, com palavras que parecem implorar por nossa compaixão. No segundo, seguimos Mathilde, em sua busca pelo noivo que não voltou da guerra, por seus caminhos teimosos e mimados.

A única coisa que nos impede de fechar os livros e nunca mais pensar nessas chatas é a única coisa que poderia salvá-las: uma excelente estória! E os autores conseguiram isso. Elas são chatas, você sente vontade de esbofeteá-las, mas se agarra às páginas. “Se agüentar chatas é o preço p’ra conhecer essa estória, eu agüento”. E é isso.

Sem coincidência alguma, os dois livros deram origem a dois ótimos filmes: Desejo e Reparação de Joe Wright, e Eterno Amor de Jean-Pierre Jeunet.

Wright conseguiu fazer Briony ser uma peça numa obra completa: estória, imagem, som,... Jeunet conseguiu, mais uma vez, trazer uma personagem que tem (e nos traz) fé na vida. Não há sonhos em verde e vermelho, como em Amélie, mas há o otimismo de criança.

Se até as chatas têm vez nessas estórias... quero uma estória dessa.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A vida sem primeira classe

Sobre "The Bucket List"

Dois homens se conhecem num hospital onde fazem tratamento contra câncer. Um é o dono do hospital, Edward Cole: aquele tipo de pessoa que tem (ou, pelo menos, pode ter) tudo aquilo o que se pode comprar nessa vida; mas, em compensação, não tem ninguém. O outro, Carter Chambers: um homem que teve que abandonar seu sonho de estudar e aceitar o primeiro trabalho que encontrou p’ra poder sustentar sua mulher, que ficou grávida antes de terem, sequer, planejado uma vida juntos.

Ao serem avisados que não teriam mais do que alguns meses de vida, os dois decidem ir atrás do que não tiveram/viveram. Fazem uma lista com o mínimo a ser alcançado e partem juntos nessa busca.

Uma lista com as coisas que gostariam de fazer antes de morrer. Pois é, até agora nada de original. Não fossem Jack Nicholson e Morgan Freeman interpretando esses papéis previsíveis nesse enredo comum, o filme seria apenas mais um sobre o mesmo de sempre. As atuações valem a uma hora e meia diante da tela.

Mas, ainda assim, algo me incomoda: a personagem rica. De onde vem essa necessidade de se ter uma personagem milionária que pode comprar tudo e arcar com todas as despesas das últimas vontades de uma pessoa?

A riqueza é muito relevante para a personagem: a arrogância; a postura de quem tenta parecer auto-suficiente; a solidão;... A riqueza é central, inclusive, para o próprio desenrolar da estória: sem ela, como viajar pelo mundo?; como dirigir carros caros?;... E é isso que me deixa curiosa: tirando-se o dinheiro de uma personagem, perder-se o roteiro?

Se, ao final dessas estórias, ficamos com a certeza de que o dinheiro não é o que importa na vida, porque ele sempre ganha papel decisivo nos enredos? Forçando um pouco, pode-se levar como lição: “para morrer sem arrependimentos, fique muito rico ou tenha um amigo milionário”.

Mas o filme tenta passar exatamente o contrário.

Essa estória é dessas simples que trazem uma reflexão universal: o que você quer conquistar antes de morrer: amor, fortuna, amizades, fama, uma família, sucesso profissional? No entanto, p’ra mim, a simplicidade fica pelo caminho no decorrer da narração.

O universal perde espaço para o restrito. A morte – que acontece a todos – leva a uma análise da vida – bem que todos têm (ou devem ter). Mas a busca pelo máximo que ela pode oferecer segue direções que não passam pelos caminhos de todos. E eu quero isso: uma viagem pela vida que não seja possível somente com o uso de passaportes.

Como enxergar a essência da vida sem um jato particular, uma refeição a base de caviar e uma volta ao mundo?

P'ra começar

...ia ser John Mayer, mas... Preciso me repetir quanto ao que ele faz?

Eu preciso aprender novos adjetivos p'ra falar dele!