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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Dois em um - um livro, um filme

No sábado em que assisti ao Up in the Air, comprei o livro que dei origem ao roteiro de Precious.
Eu não gosto de ler trechos de livros antes de comprá-los. Nem mesmo leio as orelhas. Assim como prefiro assistir a um filme sem ler a sinopse. Normalmente funciona porque garante surpresas, mas nesse caso... Acho que se eu tivesse lido duas páginas do livro não o teria comprado. Eu sei que é proposital (“você não gostou do projeto da autora!”, disse minha mãe), mas não gostei da maneira como o livro foi escrito.
Vocês devem saber que a protagonista da estória – o livro é narrado por ela – é uma garota sem sucesso na vida, e isso inclui (no caso dela, seria melhor dizer que exclui) a questão educacional. A garota, Precious, mal sabe ler e escrever. E assim se desenrola o enredo: com erros ortográficos, gramaticais e tantos outros. Entendo a coerência que isso dá à estória, mas... Não sei, me deu a sensação de estar lendo o diário de uma adolescente: tipo assim, que é algo que, tipo, sei lá, entende?
Se fosse eu, tentaria outra forma de ser coerente com a personagem...
Mas não é um livro descartável por completo. As personagens que Precious encontra são muito boas. As colegas na nova escola que passa a frequentar dão um toque mais real ao romance e apresentam à protagonista o que é um convívio social saudável (o que é curioso já que cada uma tem seu histórico de problemas sociais). Aliás, a parte dedicada a essas colegas são o único momento em que o livro vence o filme: nesse, as histórias de vida das garotas foram cortadas totalmente. Uma pena.
De resto, como já indiquei, o filme é muito melhor. É uma lição: se o cinema vem arruinando a literatura desde 1920, Precious, o filme, ensina como uma estória pode ser transformada, melhorada e recontada de maneira a se transformar numa obra à parte daquela que a originou. À parte e superior.
Há alguns pecados, na minha opinião, como a omissão de algumas personagens ou alguns pedaços de estória, e a adição de outros – era realmente necessário inventar aquela personagem ruim para ter o Lenny Kravitz no filme? Ele era tão indispensável assim? Mas, no geral, é um grande filme.
As atuações são excelentes. Até mesmo Mariah Carey: ela se saiu bem, pena que já no fim do filme tenha recebido uma lição de atuação da Mo’Nique. Já esta... Impressionante! E o enredo é muito bem desenvolvido. Curioso notar como a produção da Oprah foi relevante: a maneira como a estória (que envolve uma criança violentada, abusada e mal tratada pelos pais e pelo mundo) é abordada é a cara dela!
Enquanto o livro, às vezes, parece um tapa na cara, uma acusação contra a omissão de todos nós, o filme é muito mais leve. Parece querer se desculpar com todas as Precious que existem, alertar a todos para que possamos enxergá-las e, quem sabe?, despertar em alguns a srta. Rain que há dentro de nós.
A srta. Rain, na minha opinião, também merece destaque. A produção conseguiu encontrar uma atriz que... Sabe aquela coisa que ouvimos falar: que uma pessoa é tão boa (generosa, bondosa,...) que dá p’ra ver nos olhos dela? Então, essa é a srta. Rain. A atriz é linda e transmite, com o olhar e o jeito de falar, uma bondade que, se existisse em mais pessoas, seria capaz de salvar o mundo.
Vendo, agora, fotos da atriz no IMDB, ela já não parece a srta. Bondade que vi no filme. Pelo jeito, mais um exemplo de atuação excelente.
Bom, resumindo, minha mensagem é: o filme é excelente. Já o livro... leiam se fizerem questão. E, ainda assim, o façam antes de assistir ao filme.

Primeiro

Atchiiiiiiiiiiiiim! Nossa, quanta poeira por aqui. Tentarei ser mais atenciosa com esse espaço.
Bom, pretendo compensar o tempo em que fiquei calada por aqui: a ideia é escrever sobre cinco livros e dois filmes. Veremos se conseguirei. Começarei pelos filmes – que estão mais frescos na memória e me parecem mais interessantes no momento.
Sabadão de Carnaval, dia de folia, de peladões em frente ao edifício onde trabalho... O que eu poderia fazer? Foliar e caminhar pelada não me parecem boas opções – sequer má opções! Fui ao cinema.
Estava em dúvida entre assistir a Precious e Up in the Air (recuso-me a chamar o filme pelo título usado no Brasil. Só conhecendo a personagem do Liniers que traduz títulos p’ra entender o que se passou com esse filme). Por uma questão de horário – Up... começava às 14h e Precious às 14h30, e por eu não estar com ânimo p’ra chorar, escolhi o primeiro.
Vocês sabem a estória? Bom, um homem na faixa dos 50 anos trabalha demitindo pessoas – ele faz parte de uma empresa que é contratada só para demitir funcionários de outras empresas!; passa mais de 250 dias por ano viajando e não tem ninguém. (Poxa, um cara perto dos 50 anos, que viaja muito e não quer compromisso com ninguém... Hmmm... Deve ter sido difícil para o George Clooney se preparar para interpretar esse papel. Não preciso dizer que ele convence). Para balancear com o cinquentão – e dar enredo ao filme – uma pirralha recém-graduada entra para a empresa e propõe que as demissões sejam feitas por vídeo-conferência, gerando uma economia absurda já que os funcionários não passariam mais passar dias e dias viajando. Para convencê-la (e o chefe) de que as viagens são necessárias, Clooney a leva como acompanhante numa série de demissões que faz.
O cinquentão versus a jovem; o experiente x a recém-graduada; o sozinho por opção x a menininha que já tem planejado quando se casará e terá filhos;... Percebem? Tudo comum e esperado, né? E é isso. O filme é óbvio, previsível e bobo. Não engrandece, mas também não ofende ninguém.
Vixi, vale a pena assistir, então? Bom, em pouquíssimas cenas aparece a sempre excelente Melaine Lynskey – como a irmã mais nova de Clooney que está prestes a se casar; e, talvez o melhor do filme, a trilha sonora é muito boa – será exigência do diretor (o mesmo de Juno)? Conta com nomes como Elliott Smith e Dan Auerbach. (Indie é o novo pop, certo?)
Vai dizer que não dá vontade de curtir algo depois de ouvir isto:

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Na torcida para as chatas


Duas estórias que acompanham os acontecimentos em torno de duas garotas chatas. Mas muito chatas. Linhas que fazem você pensar: se eu conhecesse uma pessoa assim, com certeza, não seria amiga dela. Ainda assim, você se vê torcendo para elas.

Reparação, de Ian Mcewan e Um Domingo para Sempre, Japrisot Sebastien. No primeiro, Briony nos conta sua estória, com palavras que parecem implorar por nossa compaixão. No segundo, seguimos Mathilde, em sua busca pelo noivo que não voltou da guerra, por seus caminhos teimosos e mimados.

A única coisa que nos impede de fechar os livros e nunca mais pensar nessas chatas é a única coisa que poderia salvá-las: uma excelente estória! E os autores conseguiram isso. Elas são chatas, você sente vontade de esbofeteá-las, mas se agarra às páginas. “Se agüentar chatas é o preço p’ra conhecer essa estória, eu agüento”. E é isso.

Sem coincidência alguma, os dois livros deram origem a dois ótimos filmes: Desejo e Reparação de Joe Wright, e Eterno Amor de Jean-Pierre Jeunet.

Wright conseguiu fazer Briony ser uma peça numa obra completa: estória, imagem, som,... Jeunet conseguiu, mais uma vez, trazer uma personagem que tem (e nos traz) fé na vida. Não há sonhos em verde e vermelho, como em Amélie, mas há o otimismo de criança.

Se até as chatas têm vez nessas estórias... quero uma estória dessa.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A vida sem primeira classe

Sobre "The Bucket List"

Dois homens se conhecem num hospital onde fazem tratamento contra câncer. Um é o dono do hospital, Edward Cole: aquele tipo de pessoa que tem (ou, pelo menos, pode ter) tudo aquilo o que se pode comprar nessa vida; mas, em compensação, não tem ninguém. O outro, Carter Chambers: um homem que teve que abandonar seu sonho de estudar e aceitar o primeiro trabalho que encontrou p’ra poder sustentar sua mulher, que ficou grávida antes de terem, sequer, planejado uma vida juntos.

Ao serem avisados que não teriam mais do que alguns meses de vida, os dois decidem ir atrás do que não tiveram/viveram. Fazem uma lista com o mínimo a ser alcançado e partem juntos nessa busca.

Uma lista com as coisas que gostariam de fazer antes de morrer. Pois é, até agora nada de original. Não fossem Jack Nicholson e Morgan Freeman interpretando esses papéis previsíveis nesse enredo comum, o filme seria apenas mais um sobre o mesmo de sempre. As atuações valem a uma hora e meia diante da tela.

Mas, ainda assim, algo me incomoda: a personagem rica. De onde vem essa necessidade de se ter uma personagem milionária que pode comprar tudo e arcar com todas as despesas das últimas vontades de uma pessoa?

A riqueza é muito relevante para a personagem: a arrogância; a postura de quem tenta parecer auto-suficiente; a solidão;... A riqueza é central, inclusive, para o próprio desenrolar da estória: sem ela, como viajar pelo mundo?; como dirigir carros caros?;... E é isso que me deixa curiosa: tirando-se o dinheiro de uma personagem, perder-se o roteiro?

Se, ao final dessas estórias, ficamos com a certeza de que o dinheiro não é o que importa na vida, porque ele sempre ganha papel decisivo nos enredos? Forçando um pouco, pode-se levar como lição: “para morrer sem arrependimentos, fique muito rico ou tenha um amigo milionário”.

Mas o filme tenta passar exatamente o contrário.

Essa estória é dessas simples que trazem uma reflexão universal: o que você quer conquistar antes de morrer: amor, fortuna, amizades, fama, uma família, sucesso profissional? No entanto, p’ra mim, a simplicidade fica pelo caminho no decorrer da narração.

O universal perde espaço para o restrito. A morte – que acontece a todos – leva a uma análise da vida – bem que todos têm (ou devem ter). Mas a busca pelo máximo que ela pode oferecer segue direções que não passam pelos caminhos de todos. E eu quero isso: uma viagem pela vida que não seja possível somente com o uso de passaportes.

Como enxergar a essência da vida sem um jato particular, uma refeição a base de caviar e uma volta ao mundo?