No sábado em que assisti ao Up in the Air, comprei o livro que dei origem ao roteiro de Precious.
Eu não gosto de ler trechos de livros antes de comprá-los. Nem mesmo leio as orelhas. Assim como prefiro assistir a um filme sem ler a sinopse. Normalmente funciona porque garante surpresas, mas nesse caso... Acho que se eu tivesse lido duas páginas do livro não o teria comprado. Eu sei que é proposital (“você não gostou do projeto da autora!”, disse minha mãe), mas não gostei da maneira como o livro foi escrito.
Vocês devem saber que a protagonista da estória – o livro é narrado por ela – é uma garota sem sucesso na vida, e isso inclui (no caso dela, seria melhor dizer que exclui) a questão educacional. A garota, Precious, mal sabe ler e escrever. E assim se desenrola o enredo: com erros ortográficos, gramaticais e tantos outros. Entendo a coerência que isso dá à estória, mas... Não sei, me deu a sensação de estar lendo o diário de uma adolescente: tipo assim, que é algo que, tipo, sei lá, entende?
Se fosse eu, tentaria outra forma de ser coerente com a personagem...
Mas não é um livro descartável por completo. As personagens que Precious encontra são muito boas. As colegas na nova escola que passa a frequentar dão um toque mais real ao romance e apresentam à protagonista o que é um convívio social saudável (o que é curioso já que cada uma tem seu histórico de problemas sociais). Aliás, a parte dedicada a essas colegas são o único momento em que o livro vence o filme: nesse, as histórias de vida das garotas foram cortadas totalmente. Uma pena.
De resto, como já indiquei, o filme é muito melhor. É uma lição:
se o cinema vem arruinando a literatura desde 1920,
Precious, o filme, ensina como uma estória pode ser transformada, melhorada e recontada de maneira a se transformar numa obra à parte daquela que a originou. À parte e superior.
Há alguns pecados, na minha opinião, como a omissão de algumas personagens ou alguns pedaços de estória, e a adição de outros – era realmente necessário inventar aquela personagem ruim para ter o Lenny Kravitz no filme? Ele era tão indispensável assim? Mas, no geral, é um grande filme.
As atuações são excelentes. Até mesmo Mariah Carey: ela se saiu bem, pena que já no fim do filme tenha recebido uma lição de atuação da Mo’Nique. Já esta... Impressionante! E o enredo é muito bem desenvolvido. Curioso notar como a produção da Oprah foi relevante: a maneira como a estória (que envolve uma criança violentada, abusada e mal tratada pelos pais e pelo mundo) é abordada é a cara dela!
Enquanto o livro, às vezes, parece um tapa na cara, uma acusação contra a omissão de todos nós, o filme é muito mais leve. Parece querer se desculpar com todas as Precious que existem, alertar a todos para que possamos enxergá-las e, quem sabe?, despertar em alguns a srta. Rain que há dentro de nós.
A srta. Rain, na minha opinião, também merece destaque. A produção conseguiu encontrar uma atriz que... Sabe aquela coisa que ouvimos falar: que uma pessoa é tão boa (generosa, bondosa,...) que dá p’ra ver nos olhos dela? Então, essa é a srta. Rain. A atriz é linda e transmite, com o olhar e o jeito de falar, uma bondade que, se existisse em mais pessoas, seria capaz de salvar o mundo.
Vendo, agora, fotos da
atriz no IMDB, ela já não parece a srta. Bondade que vi no filme. Pelo jeito, mais um exemplo de atuação excelente.
Bom, resumindo, minha mensagem é: o filme é excelente. Já o livro... leiam se fizerem questão. E, ainda assim, o façam antes de assistir ao filme.